Como evitar ou sair do endividamento

Autor: Hermano Mota

O aumento da oferta de crédito no mercado representou o principal impulsionador da economia brasileira recentemente, que registrou crescimento de 45% entre 2002 e 2011, puxado principalmente pelo consumo. A posse de um imóvel, a aquisição de bens materiais ou de serviços, o consumo de um serviço pago à vista foi facilitado pela regulamentação de leis e aumento de garantias para quem financia, facilitando a obtenção de crédito.

No mesmo período de 2002 a 2011, o número de cartões de crédito no Brasil cresceu 275%, atingindo a marca de 687 milhões, segundo a Febraban. Isto já põe o Brasil na terceira posição entre os países com maior número de cartões de crédito por habitante, com 0,9 cartões para cada brasileiro. À frente estão os Estados Unidos, com 2,8 cartões de crédito por habitante, e o Japão, com 3,2 cartões. Além dos cartões de crédito, diversas outras modalidades de crédito e pagamento surgiram ou se expandiram, como o cartão de débito, o crédito consignado, o crédito ao consumidor e o cheque especial. Estamos, portanto, expostos a uma infinidade de opções para aquisição de crédito, a maioria de fácil contratação, à disposição para quem necessitar. Esta facilidade propiciada ao consumidor, por outro lado, potencializa o lado negativo desta equação: o aumento da inadimplência.

A injeção de crédito e a facilidade para adquiri-lo são fenômenos econômicos recentes, que não vieram acompanhados da devida orientação financeira para a fim de evitar problemas de endividamento excessivo. A variedade de opções de crédito, de taxas de juros e condições de financiamento muitas vezes atordoam o consumidor, que não sabe o que escolher, não sabe a taxa que realmente está sendo praticada e não avaliada seu real potencial de pagamento da dívida.

A ênfase dada no comércio e no sistema financeiro ao valor da parcela, ao invés do montante que o consumidor pagará de principal e de juros, aliada à dificuldade que pessoas têm para calcular o quanto realmente será pago pelo produto, impacta a capacidade de pagamento. Quanto mais caro é um financiamento, maior a probabilidade de que, em momento futuro, o consumidor tenha dificuldade em cumprir o contrato até o final. O aumento da inadimplência aumenta o risco do sistema financeiro, que neste cenário eleva ainda mais as taxas para novos tomadores de empréstimos, alimentando perigosamente esta bolha inflacionária.

Há anos o país experimenta incentivos governamentais para acelerar a economia através do aumento do consumo das famílias, com a redução forçada de taxas de juros e a desoneração de impostos de segmentos da indústria (como, por exemplo, a redução no IPI de eletrodomésticos da linha branca). A renda média da população também tem evoluído consistentemente, principalmente nas classes C, D e E, aumentando consideravelmente a demanda por produtos e serviços, que antes eram considerados restritos à população.

Por outro lado, a renda da população tem crescido mais que a produtividade do trabalhador, acarretando aumento de custos, que são repassados ao mercado. Segundo a Agência Brasil, o número de famílias que declarou ter dívidas chegou a 64,2% no primeiro trimestre de 2012, número 5,5 pontos percentuais superior ao mesmo período do ano passado, quando o índice estava em 58,7%. Este aumento consistente indica que o consumo vem aumentando mais do que a renda, elevando o grau de endividamento.

Na pesquisa realizada em Maio de 2012, as famílias brasileiras declararam comprometer até 45% da renda mensal ao pagamento de dívidas Porém, dadas as condições macroeconômicas e a baixa taxa de poupança das famílias, o Brasil tem poucas alternativas para aumentar o crédito de forma sadia, a não ser através do aumento da produtividade e da taxa de poupança, além da redução do peso do estado na economia, possibilitando a redução das taxas de juros no médio prazo.

O comprometimento da renda para o pagamento de dívidas, somada às despesas cotidianas de manutenção do lar reduz o espaço para a formação de uma reserva financeira para os momentos de crise, como a perda do emprego ou um problema repentino de saúde. Caso uma das rendas da família seja bruscamente eliminada, como no caso da demissão de um dos membros da família, a possibilidade de honra dos compromissos financeiros cai significativamente. Daí para a inadimplência e o início de um ciclo infernal de dívidas, autuações da justiça, inserção do nome nos serviços de proteção ao crédito ou mesmo a perda destes bens, é um passo.

A reserva financeira não tem a função apenas de proteção contra momentos de crise, mas também possibilita a aquisição de bens futuros por valores menores, dado o poder de barganha gerado pela posse do dinheiro. Seja através da redução do número de parcelas ou do pagamento à vista, quem tem dinheiro na mão consegue negociar melhor.

Para evitar o endividamento excessivo ou sair dele é fundamental, primeiramente, a redução de gastos não essenciais, permitindo a redução do peso das dívidas sobre o total da renda disponível. Geralmente não são necessárias atitudes drásticas de redução de consumo, mas sim uma redução gradual no nível de endividamento. Se a situação não for dramática, cortes de poucos itens já são suficientes para reduzir o grau de endividamento geral no médio prazo. Porém, é importante que esta economia seja guardada, evitando a realização de novas dívidas, ou utilizada para a antecipação de parcelas da dívida, reduzindo sua exposição ao risco. Porém, se a situação financeira for dramática, com altos custos de juros, uma atitude incisiva é desejável até que você volte a ter o controle sobre sua vida financeira.

Com a redução do grau de endividamento, pode haver uma propensão a gastar novamente quando você percebe que seu risco está menor. O ideal é conter este impulso e, antes de adquirir uma nova dívida, ou preparar-se melhor, ou vincular uma nova compra à quitação de uma dívida anterior e semelhante. Esta preparação abrange não comprar por impulso e pesquisar mais profundamente até encontrar o melhor custo-benefício do produto em questão. Quando possível, procure comprar à vista dois itens por mês, por exemplo, ao invés de adquirir dez itens a prazo. À vista você negocia descontos e reduz o impulso para novas compras, pois parte da sua renda disponível para compras já foi utilizada.

Sempre pense também no valor total de cada compra. Veja quanto o valor total representa do seu salário mensal e compare com outras alternativas de produtos e serviços. Outra sugestão é, quando quiser comprar algo, anote os produtos desejados e evite comprá-los naquele momento. Espere uma semana. Se depois disso sua motivação para comprar o produto ainda estiver alta, vá em frente, não esquecendo de fazer uma bela pesquisa de preços.

A mudança de postura com relação ao dinheiro é muito importante. Não é necessário fazer novas dívidas imediatamente às anteriores serem quitadas. Procure reservar uma parte para aplicar e permitir folgas financeiras no futuro. A quitação das dívidas e a reorganização financeira imediata é um caminho trabalhoso, mas relativamente fácil. O desafio maior é a mudança de mentalidade para pensar como investidor e não apenas como comprador. Investir parte da renda como forma de obter ganhos e reduzir os riscos financeiros a longo prazo é algo que se deve praticar diariamente.

Será que você precisa realmente de tudo o que adquire? Será que muitas coisas que você comprou não ficaram sem uso pouco tempo depois, ocupando espaço em sua casa? Se você juntasse em um mesmo local todas as roupas, sapatos, eletrodomésticos e outros produtos que você não utiliza há mais de um ano, provavelmente você se assustaria com a quantidade de produtos?. O consumo excessivo está correlacionado com o alto endividamento. Não se preocupar em ter o que seus amigos têm, não querer ter tudo o que é lançado, não ter dezenas de peças de cada tipo de roupa ou sapato, são atitudes que podem ser a diferença entre um estado devedor e um estado credor, sem que traga grandes sacrifícios no seu dia-a-dia.

Gastar sem necessidade, sem pesquisar, sem comparar, é um passo para o arrependimento por o produto não ter sido a melhor escolha. Reduzir as dívidas são como fazer uma dieta: continue com o que é importe e corte o que é desnecessário, porém se presenteando quando suas metas de economia são atingidas.

Autor: Hermano Mota

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By | 2017-05-26T22:45:39+00:00 03 junho, 2012|Categories: Artigos, Consumo, Pesquisas|Tags: , , |0 Comments

About the Author:

Mestre em Economia, especialização em gestão financeira e controladoria, além de MBA em Marketing. Experiência focada em gestão de inteligência competitiva, trade marketing e risco de crédito. Focado no desenvolvimento de estudos de cenários para a tomada de decisão em nível estratégico. Vivência internacional e fluência em inglês e espanhol. Autor do livro: Por Que Me Endivido? – Dicas para entender o endividamento e sair dele.

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